14 de setembro de 2008
Iniciaçao a transmissao do Poder
Apesar de geralmente ser traduzida como iniciação, a palavra abhisheka em sânscrito e o seu equivalente tibetano, wang kur (tib. dbang bskur) significam ordenação, transmissão de poder. Em sânscrito, também é usada para se referir a consagração, coroação, entronização e aspersão de água. Nos últimos anos, muitos autores têm traduzido estas palavras para o inglês como empowerment ao invés da já costumeira initiation.
Seja como for, as iniciações são cerimônias em que o mestre-vajra (tib. vajracharya, tib. dorje lopön / rdo rje slob spon) autoriza seus alunos a ouvir, estudar e praticar os ensinamentos do buddhismo Vajrayana. Assim como uma cerimônia de casamento representa a união de duas pessoas, uma cerimônia de iniciação é a união das bênçãos de um mestre (sânsc. guru) realizado como a devoção e receptividade de um discípulo (sânsc. chela, adhikarin). Portanto, receber a iniciação de um professor qualificado é essencial para a prática do buddhismo Vajrayana. Diz-se que, se o discípulo considerar o mestre como uma pessoa comum, ele receberá as bênçãos de uma pessoa comum; se vê-lo como um amigo, receberá as bênçãos de um amigo; mas se vê-lo como um buddha, receberá as bênçãos de um buddha.
O objetivo da cerimônia é o de amadurecer o praticante, revelar o seu próprio estado búddhico (sânsc. tathagatagarbha, sugatagarbha) e plantar a semente para a iluminação. Após recebê-la, o praticante deve cultivar este semente através da prática cotidiana. Durante a iniciação, o praticante assume externamente o voto de liberação individual (sânsc. pratimoksha), a renúncia ao samsara. Internamente, ele gera a mente da iluminação (sânsc. bodhichitta) e assume o voto de bodhisattva — a aspiração de levar todos os seres à liberação. Secretamente, ele assume o compromisso (sânsc. samaya) de manter a prática Vajrayana.
Muitas vezes, a iniciação tântrica é um rito complexo, envolvendo visualizações detalhadas, preces e súplicas, implementos rituais especiais e substâncias. O objetivo é estabelecer o iniciado na disposição adequada da mente, forjar um elo kármico com o lama e com a divindade meditacional, purificar negatividades, dar a permissão para praticar um tantra específico e dar a instrução de como isso deve ser feito.
(John Powers, Introduction to Tibetan Buddhism)
Receber uma iniciação é como plantar uma semente. Com as condições corretas, posteriormente esta semente irá florescer e crescer na iluminação. Durante a iniciação, cada um das três portas [corpo, fala e mente] é abençoada individualmente; assim, há uma iniciação do corpo, uma iniciação da fala e uma iniciação da mente. Deste modo, as máculas de cada uma das três portas são purificadas e você é autorizado a se visualizar na forma da divindade, a recitar o mantra da divindade e a meditar sobre a mente da divindade.
(Ngawang Phuntsok, On Receiving Wang)
O equivalente sânscrito de “iniciação” é abhisheka, que significa “espargir”, “verter”, “unção”. E para se verter é preciso que haja um vaso onde passa cair o líquido vertido. Se nos comprometemos realmente, abrindo-nos para nosso amigo espiritual de maneira apropriada e completa, transformando-nos num vaso que possa receber a comunicação, ele também se abrirá, e então a iniciação ocorre. Este é o significado do abhisheka, ou “o encontro das duas mentes”, a do mestre e a do discípulo.
(Chögyam Trungpa Rinpoche, Além do Materialismo Espiritual)
Para praticar as visualizações e se engajar na sadhana, ou prática do tantra, é necessário receber a autorização adequada ou abhisheka. Segundo Jamgön Kongtrül, o Grande, a palavra abhisheka deriva de duas fontes diferentes. A primeira é abhikensa, que significa “aspersão”. Faz parte de cada autorização individual que recebemos e simboliza a purificação das impurezas. A outra palavra é abhikenta, que significa “pôr alguma coisa em um recipiente”. Segundo Jamgön Kongtrül, isso significa que quando a mente se livrar das impurezas, as qualidades de sabedoria poderão ser colocadas nela. Assim, a conotação real de abhisheka é autorização. Essa autorização é que dá eficácia à nossa prática.
(Traleg Kyabgon Rinpoche, The Essence of Buddhism)
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